ARMAZENE - Associação Brasileira de Armazenamento de Energia

A corrida das baterias: empresas apostam em leilão de R$ 10 bi que pode redesenhar o setor elétrico

Fábrica da WEG promete ser a maior em produção de baterias para armazenamento de energia e deve começar a operar em 2027 (WEG / Divulgação) -

WEG constrói fábrica, ISA Energia já opera e Matrix vende o serviço em um mercado que ganha escala para destravar o armazenamento de energia no país e estabilizar a rede elétrica

Sofia Schuck

Em Itajaí, no litoral norte de Santa Catarina, a WEG está construindo o que promete ser a mais moderna fábrica de sistemas de armazenamento de energia em baterias do Brasil.

Com R$ 280 milhões financiados pelo BNDES e conclusão prevista para o segundo semestre de 2027, a planta terá capacidade de produzir 2 GWh por ano - o equivalente a 400 sistemas de 5 MWh cada ou o suficiente para armazenar energia e cobrir horas de consumo de uma indústria de médio porte sem acionar a rede.

O pontapé mira atender projetos de grande escala conectados ao sistema elétrico, aplicações comerciais e industriais, redes e integração com renováveis.

A aposta não é por acaso: o Brasil está próximo de realizar seu primeiro leilão de baterias da história, com potencial de movimentar mais de R$ 10 bilhões e contratar 2 gigawatts de capacidade de armazenamento.

Já adiado duas vezes, o Ministério de Minas e Energia garante que o certame deve acontecer em junho e as expectativas das empresas do setor elétrico são altas para alavancar e escalar a tecnologia verde.

Manfred Peter Johann, VP de Automação e Sistemas da WEG, diz à EXAME que a expansão fabril é necessária para atender uma boa parte do leilão de reserva de BESS (Battery Energy Storage System).

Apelidada de "fábrica de bilionários", a multinacional catarinense começou produzindo motores elétricos e hoje é uma das maiores fabricantes de equipamentos elétricos do mundo, nos últimos anos se posicionando estrategicamente em armazenamento energético.

Mas competir nesse mercado significa enfrentar gigantes asiáticos que dominam toda a cadeia produtiva das baterias e a empresa reconhece o limite: "O que o Brasil importa em peso hoje da China são as células. O resto fazemos aqui", destaca o VP.

A WEG não está sozinha nessa corrida. Em operação de redes, a ISA Energia já colocou em funcionamento o primeiro sistema de armazenamento em larga escala conectado à rede de transmissão brasileira.

Do lado do mercado livre, a Matrix Energia opera baterias industriais como serviço gerenciado para indústrias e grandes comércios.

O movimento acontece num momento de contradição do setor elétrico: no último dia 20 de março, o governo realizou o 3º Leilão de Reserva de Capacidade contratando 2,8 GW de termelétricas a óleo diesel, colocando em xeque os compromissos pelo fim gradual dos combustíveis fósseis e na contramão da transição energética.

Entre os dois certames em curso, especialistas refletem: afinal, qual matriz energética o Brasil quer ter?

A rede elétrica no limite

Para entender o cenário atual, é preciso olhar para a expansão da matriz energética do Brasil nos últimos anos: uma das mais limpas do mundo, com cerca de 88% da energia gerada proveniente de fontes renováveis, como hidrelétricas, eólica e solar.

Um dos grandes gargalos do setor hoje é a intermitência. Enquanto a energia solar gera durante o dia e as usinas eólicas dependem do vento, o maior pico de consumo elétrico acontece no início da noite - exatamente quando a geração solar cai.

Esse desencontro entre geração e consumo sobrecarrega a rede e obriga o sistema a acionar termelétricas a gás e carvão para cobrir o déficit. O resultado é ineficiência, alto custo e caminhar na contramão da descarbonização do país.

"O sistema elétrico vem sofrendo instabilidades, é uma necessidade colocada na mesa e que precisa ser resolvida. As baterias são o verdadeiro canivete suíço de soluções", ressalta Manfred, da WEG.

E aí que entram os sistemas de armazenamento em baterias, conhecidos pela sigla BESS, solução já amplamente utilizada em países como Portugal, Espanha e Estados Unidos.

Na prática, a tecnologia funciona como um reservatório inteligente ou "power bank", que carrega quando há excesso de energia na rede e descarrega nos momentos de pico, evitando sobrecarga, controlando a frequência e estabilizando a tensão da rede elétrica.

Elbia Gannoum, enviada especial de energia da COP30 e presidente da ABEEólica, coloca o momento em perspectiva histórica.

"O Brasil está começando agora com seus primeiros leilões de BESS, mirando um sistema mais estável para além das já consolidadas hidrelétricas, que já agem como baterias naturais", acrescentou à EXAME.

Elbia Gannoum, presidente da ABEEólica e enviada especial de energia da COP30 (Leandro Fonseca /Exame)

O potencial brasileiro é gigante e a oportunidade é única, garante a especialista: o Sistema Interligado Nacional, que conecta praticamente todo o território e permite transferir energia entre regiões, e a liderança inegável em fontes renováveis. As baterias vêm para tornar esse sistema ainda mais resiliente.

E o impacto não se limita às gigantes da indústria. Uma pesquisa recente mostrou que 80% dos brasileiros já consideram usar baterias em suas casas para driblar os cada vez mais frequentes e temidos apagões.

A aposta bilionária das gigantes do setor

A ISA Energia Brasil já deu o primeiro passo concreto na rede de transmissão nacional. Em Registro, no litoral sul de São Paulo, a empresa colocou em operação o primeiro sistema de armazenamento em baterias em larga escala. Segundo o diretor-presidente da companhia, Rui Chammas, um passo fundamental para desmistificar a tecnologia no país.

A função do sistema em Registro é o chamado peak shaving, que significa literalmente, cortar os picos de demanda. As baterias atuam em três frentes para resolver a intermitência das fontes renováveis: arbitragem de preço, reserva de capacidade e controle de demanda.


Na prática, em vez de construir uma nova linha de transmissão para suportar um pico pontual de consumo, a ISA mira armazenar a energia em momentos de sobra e a injetar com precisão quando o sistema precisa.

"Isso traz mais eficiência, confiabilidade e flexibilidade", explica Chammas, à EXAME.

O projeto pioneiro também teve impacto regulatório concreto: ajudou o Ministério de Minas e Energia e a ANEEL a entender, na prática, como o armazenamento funciona dentro do sistema elétrico.

Para o presidente da companhia, sair do campo conceitual para a aplicação real foi o principal avanço dos últimos anos. A ISA, que tem um portfólio de R$ 12,3 bilhões em investimentos previstos até 2030, acompanha o leilão com "disciplina financeira", mas está atenta.

E deixa um recado claro sobre o que está em jogo além do certame: "Não há transição energética sem uma rede de transmissão robusta, eficiente e preparada para novos desafios".

Se a WEG olha para a bateria como produto e a ISA Energia como infraestrutura de rede, a Matrix Energia enxerga o mesmo equipamento como ponto de entrada para uma relação completamente diferente com o cliente.

E está crescendo rápido: a empresa acaba de anunciar que vai dobrar sua capacidade instalada em sistemas de armazenamento , dos atuais 96 MWh em operação para cerca de 250 MWh até o fim de 2026.

O modelo da empresa, chamado de Energy as a Service (EaaS), parte de uma premissa simples: a maioria das indústrias e grandes comércios não quer operar energia, apenas garantir que a eletricidade esteja funcionando.

Em dois anos de operação, são mais de 117 unidades de BESS instaladas, atendendo mais de 60 clientes em 12 segmentos da economia - de frigoríficos e agroindústria a redes de atacarejo, hotelaria e farmacêutico. Entre os contratos recentes, estão a maior engarrafadora de bebidas do país e a expansão para o Assaí Atacadista na Bahia e no Pará.

Na prática, a Matrix instala o sistema de baterias em parceria com a Huawei Digital Power, faz a engenharia, monitora o consumo em tempo real por meio de um Centro de Operações Integrado próprio e opera a energia do cliente.

Isso tudo apostando em comprar quando está barato, armazenar e usar quando está caro. No fim do dia, o cliente paga pelo resultado e a complexidade técnica e operacional fica com a plataforma digital de soluções energéticas.

"O BESS nos permite oferecer confiabilidade e proximidade com o cliente, por meio de um produto com desempenho e eficiência para alta e média tensão", contou à EXAME Alexandre Gomes, Vice-Presidente Comercial da Matrix Energia.

Mas o diferencial vai além da tecnologia. "Passamos a entender a rotina de consumo energético das empresas e atuamos como parceira estratégica para otimizar suas operações diárias", complementou o executivo.

Para Gomes, a integração do armazenamento com o Mercado Livre de Energia é o diferencial competitivo central e também o caminho para democratizar o acesso à energia renovável.

A bateria, sozinha, é um ativo. Conectada à inteligência de dados e à comercialização de energia, vira uma plataforma de soluções para o mercado.

Leilão atrasado e ainda sem regras definidas

O governo federal prometeu realizar o primeiro leilão de baterias ainda no primeiro semestre de 2025 e última data provável sinalizada pelo ministro de Minas e Energia é junho.

Mas o mercado aguarda com cautela: o certame já foi adiado ao menos uma vez, e as regras de remuneração ainda estão em discussão. Algumas perguntas ainda estão em aberto: como pagar pelas baterias? Quem assume os custos de operação? Como remunerar os diferentes serviços que o sistema pode prestar à rede?

A diferença deste leilão em relação aos tradicionais é que ele contrata disponibilidade, e não apenas energia gerada.

"Dessa forma, o Brasil cria condições para garantir potência firme nos momentos críticos. Isso reduz custos sistêmicos, emissões e vulnerabilidades da rede", destaca o VP da Matrix energia.

Já Alexandre Viana, CEO da Envol, consultoria especializada no setor elétrico, traz uma visão de longo prazo e com equilíbrio importante.

"O BESS ainda não é a tecnologia mais competitiva, mas pensando em portfólio futuro será elemento central", avalia.

O executivo estima que o Brasil poderia acomodar até 20 gigawatts de armazenamento até 2035 - somando os leilões e a regulação que deve surgir nos próximos anos. E ainda considera essa projeção conservadora.

Para dar dimensão: o atual Plano Decenal de Expansão de Energia para 2035 (PDE) em consulta pública até março já prevê 6,6 GW.

Um ponto ainda em aberto é a formação de preço. Enquanto o Brasil discute um modelo híbrido de precificação, o CEO da Envol acredita que as baterias precisarão estar incluídas nesse mercado previsto para entrar em vigor entre 2028 e 2029.

O BESS depende da chamada "arbitragem de preço": comprar energia barata nos horários de sobra e injetar na rede nos horários de pico. Sem essa sinalização econômica clara, o negócio perde atratividade para o investidor, dizem os especialistas.

Os números do leilão de baterias 2026

  • 2 GW de capacidade contratada prevista: equivalente ao consumo de 2 milhões de residências
  • R$ 10 bilhões em jogo
  • 6,6 GW previstos pelo governo até 2035, segundo o PDE 2035
  • 20 GW de potencial estimado por especialistas: três vezes o plano oficial

Do lado da indústria, a disputa pelos contratos deve ser intensa. Fabricantes locais como WEG e Moura competirão com gigantes globais: a americana Tesla e as chinesas CATL, maior fabricante de baterias do mundo, BYD e Huawei.

Do lado dos desenvolvedores de projetos, grupos como AXIA Energia e ISA Energia já sinalizaram interesse em participar.

O que diferencia a WEG no mercado de baterias não é apenas a capacidade produtiva. A empresa já domina grande parte da cadeia de infraestrutura elétrica: inversores, transformadores, automação e sistemas de média tensão.

Há ainda uma vantagem competitiva concreta frente aos fabricantes asiáticos: a produção local habilita os projetos a acessar o financiamento via BNDES. Para projetos de grande porte no Brasil, essa condição pode ser decisiva na competitividade de preço, reduzindo o custo de capital e aumentando a atratividade frente a equipamentos importados.

Nos Estados Unidos, a WEG já opera no mercado de armazenamento há alguns anos e no Brasil, mantém um laboratório experimental de produção de células de bateria em Jaraguá do Sul (SC) para testar todas as etapas produtivas, em escala de pesquisa e desenvolvimento.

As células em si ainda são importadas, majoritariamente da China, onde está concentrado o refino e a fabricação em escala comercial. A tecnologia que mais se utiliza atualmente é a de lítio ferro fosfato e o Brasil tem vantagem com grandes reservas dos minerais críticos. O que falta ainda são as etapas intermediárias de processamento, hoje dominadas pela potência chinesa.

A queda de preço das baterias nos últimos anos é outro fator que torna o momento propício. Manfred atribui isso a dois fatores combinados: escala global e evolução tecnológica.

A mobilidade elétrica teve papel fundamental: carros elétricos usam componentes similares às baterias de armazenamento, e o crescimento acelerado desse mercado tornou toda a cadeia produtiva mais eficiente e econômica.

"O preço vem caindo e a expectativa é que aconteça algo similar com o que aconteceu com a tecnologia solar. Nesse quebra-cabeça, o Brasil faz muito sentido", resume o executivo da Matrix Energia.

O que ainda falta para escalar a tecnologia?

O consenso entre todas as empresas e especialistas ouvidos pela EXAME é claro: o principal obstáculo para escalar o armazenamento de energia no Brasil não é tecnológico nem financeiro: é regulatório.

As baterias já são economicamente viáveis e os preços caíram consistentemente nos últimos anos. O que ainda falta é um marco que reconheça e remunere adequadamente os múltiplos serviços que a tecnologia verde presta ao sistema elétrico.

A escolha revelada pelo recente 3º Leilão de Reserva de Capacidade ilustra bem o nó em que o Brasil se encontra. Enquanto o mercado aguarda ansiosamente o leilão de baterias, o sistema elétrico continua sendo abastecido por fontes caras e poluentes que as renováveis e o armazenamento tem o potencial de substituir.

Para os especialistas, é exatamente esse tipo de sinalização que atrasa os investimentos em soluções mais limpas e sustentáveis.

Sem um mecanismo claro de precificação, o investidor não tem previsibilidade de retorno e os projetos ficam represados.

"Para que as baterias ganhem escala, é fundamental consolidar um marco regulatório que reconheça a neutralidade tecnológica e viabilize a remuneração dos serviços sistêmicos prestados pelas baterias", ressalta o presidente da ISA Energia.

Já Alexandre, da Matrix, aponta que o Brasil reúne todas as condições para acelerar a digitalização e a ampliação do mercado livre de energia, mas a velocidade desse crescimento dependerá de sinais regulatórios claros que valorizem a "flexibilidade que as baterias trazem ao sistema."

Para que o Brasil chegue ao potencial no mercado de baterias, será preciso avançar na formação de preço, no empilhamento de serviços e na integração com os mercados de energia e capacidade. Não restam dúvidas: o país tem as condições naturais: sol e vento abundante, minerais críticos e uma matriz majoritariamente limpa.

Em junho, quando o leilão finalmente acontecer, o setor elétrico estará diante de um momento histórico. A corrida já começou, as regras que ainda estão sendo escritas.

Exame
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