Que espaço sobrou para as baterias após o LRCAP?

Tecnologia BESS em projeto da Oncorp, no sistema isolado de Roraima, para armazenamento em grandes baterias (Foto: Divulgação Baterias Moura) -
Agência eixos analisa o quão BESS e termelétricas competem entre si e tenta dimensionar o espaço que ainda cabe às baterias após contratação de 16 GW de térmicas no leilão de março
André Ramalho
A ofensiva articulada no Congresso, para suspender o 2º Leilão de Reserva de Capacidade (LRCAP) coloca de novo em evidência a disputa por espaço entre termelétricas e baterias, na garantia de potência ao sistema elétrico.
O setor de BESS (sigla em inglês para armazenamento de energia por baterias) cobra do governo federal uma definição sobre o primeiro leilão da modalidade, previsto inicialmente para 2026, mas ainda sem data marcada.
Sob o temor de que o LRCAP de março apague o senso de urgência em torno do certame das baterias, o setor partiu para as críticas à contratação de mais de 16 GW de termelétricas - com amplo predomínio das usinas a gás natural.
De acordo com analistas do setor, BESS e as térmicas são, ao fim, concorrentes e, ao mesmo tempo, soluções complementares para o Sistema Interligado Nacional (SIN). E o LRCAP de março não esgota a demanda pelas baterias.
A seguir, a agência eixos tenta clarear o assunto, com a ajuda de consultores do setor elétrico, e tenta dimensionar qual, afinal, o espaço que ainda cabe às baterias no sistema.
Inicialmente, o ministro Alexandre Silveira chegou a estimar que o certame de BESS deveria ter 2 GW de demanda - mas isso foi em 2025, antes da contratação das térmicas, portanto.
Logo após a realização do LRCAP de março, o secretário-executivo do MME, Gustavo Ataíde, afirmou que a contratação das térmicas no leilão não afetaria a demanda do futuro leilão de BESS, em meio a preocupações levantadas pela Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de Energia (Absae), na ocasião.
Críticas do montante de potência contratada nos LRCAPs de março e de seus impactos sobre a conta de luz, entidades ligadas aos consumidores de energia enxergam pouco espaço para o leilão de BESS.
"Eu gostaria muito que houvesse, mas acho que não tem mais espaço para fazer", disse à eixos o presidente da Frente dos Consumidores de Energia, Luiz Eduardo Barata, durante um evento em Brasília, na semana passada.
Passado o LRCAP, o setor renova a defesa pela pronta realização do leilão de BESS.
A ofensiva articulada no Congresso, para suspender o 2º Leilão de Reserva de Capacidade (LRCAP) coloca de novo em evidência a disputa por espaço entre termelétricas e baterias, na garantia de potência ao sistema elétrico.
O setor de BESS (sigla em inglês para armazenamento de energia por baterias) cobra do governo federal uma definição sobre o primeiro leilão da modalidade, previsto inicialmente para 2026, mas ainda sem data marcada.
Sob o temor de que o LRCAP de março apague o senso de urgência em torno do certame das baterias, o setor partiu para as críticas à contratação de mais de 16 GW de termelétricas - com amplo predomínio das usinas a gás natural.
De acordo com analistas do setor, BESS e as térmicas são, ao fim, concorrentes e, ao mesmo tempo, soluções complementares para o Sistema Interligado Nacional (SIN). E o LRCAP de março não esgota a demanda pelas baterias.
A seguir, a agência eixos tenta clarear o assunto, com a ajuda de consultores do setor elétrico, e tenta dimensionar qual, afinal, o espaço que ainda cabe às baterias no sistema.
LRCAP esgota necessidade por baterias?
Prometido pelo Ministério de Minas e Energia (MME) para 2026, o primeiro leilão de baterias segue indefinido e o setor pressiona pela definição das diretrizes da concorrência - Huawei, Brasol, Elera Renováveis e Axia Energia são algumas das empresas que têm cobrado a publicação das diretrizes para a concorrência.Inicialmente, o ministro Alexandre Silveira chegou a estimar que o certame de BESS deveria ter 2 GW de demanda - mas isso foi em 2025, antes da contratação das térmicas, portanto.
Logo após a realização do LRCAP de março, o secretário-executivo do MME, Gustavo Ataíde, afirmou que a contratação das térmicas no leilão não afetaria a demanda do futuro leilão de BESS, em meio a preocupações levantadas pela Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de Energia (Absae), na ocasião.
Críticas do montante de potência contratada nos LRCAPs de março e de seus impactos sobre a conta de luz, entidades ligadas aos consumidores de energia enxergam pouco espaço para o leilão de BESS.
"Eu gostaria muito que houvesse, mas acho que não tem mais espaço para fazer", disse à eixos o presidente da Frente dos Consumidores de Energia, Luiz Eduardo Barata, durante um evento em Brasília, na semana passada.
Passado o LRCAP, o setor renova a defesa pela pronta realização do leilão de BESS.
- A Absae reconhece que térmicas e baterias concorrem, em certa medida, mas que ainda há um déficit de potência de 3 GW a 5 GW a ser coberto por baterias.
"Substancialmente, a decisão do volume é uma decisão eminentemente de política pública do MME", comentou o diretor-executivo da Absae, Fábio Lima.
- A PSR estima, por sua vez, que a contratação de BESS, no primeiro leilão da modalidade, pode variar de 500 MW a 2 GW, a depender das premissas a serem adotadas - como a projeção de carga do sistema, dentre outras.
Ao contrário do que se pode imaginar, nesse caso, as projeções da consultoria, hoje, são maiores que aquelas pré-LRCAP.
Isso porque algumas premissas mudaram, como a previsão de carga. O head de Regulação e Litígio da PSR, Jairo Terra, também relata que a consultoria esperava, por exemplo, que as térmicas existentes fossem contratadas, integralmente, nos produtos 2026 e 2027 do LRCAP de março - o que não se confirmou.
Usinas existentes foram negociadas também em produtos com entrega mais para frente, para o fim da década.
"Temos visto um desafio para o sistema, com muita mini e micro geração distribuída, aumento de carga com data centers, maior volatilidade e participação do consumidor na geração", comentou Terra, que, por outro lado, prega cautela com a calibração de demanda do leilão de BESS, por se tratar de uma primeira contratação", disse.
Ele sugere que o primeiro leilão seja encarado como um teste de mercado - embora experiências em outros países, acrescenta, já mostrem que a tecnologia é, hoje, madura e competitiva.
Colocado em consulta pública em fevereiro, antes do LRCAP, portanto, o Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE 2035), da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), enxerga um crescimento gradual do BESS.
- A EPE projeta que o armazenamento possa contribuir, em 2028, com uma expansão de pouco mais de 600 MW, chegando a 6,6 GW em 2035.
- A expectativa é mais que o dobro do projetado no PDE 2034.
À época, o documento avaliava que as baterias ainda estavam longe de serem economicamente atrativas e que a entrada no mercado seria marginal. Agora, a estatal do planejamento energético vê a tecnologia ganhando escala no país, impulsionada também pela competitividade.
Novo relatório da Agência Internacional de Energias Renováveis (Irena, em inglês), publicado esta semana, aliás, mostra que, em regiões com alta produtividade solar e eólica, as soluções híbridas combinadas com armazenamento fornecem energia ininterrupta a custos mais baixos do que os combustíveis fósseis - e o Brasil é uma delas.
Mas, afinal, BESS e térmicas concorrem entre si?
A resposta é sim, em certa medida. Baterias e térmicas podem ser entendidas como soluções concorrentes na reserva de capacidade.Mas, como possuem especificidades, as duas tecnologias também são complementares para o sistema, explica Jairo Terra, da PSR.
"O LRCAP, na forma como foi desenhado, suscita que as térmicas não foram contratadas só para potência, mas, se necessário, também para suprimento de energia. Então as baterias não caberiam nesse formato. A disponibilidade 24×7 só a térmica consegue entregar", comenta.
Ele acrescenta que a bateria, por sua vez, tem outras valências - como a contribuição para reduzir os curtailments (entenda o que são os cortes de geração)
"As baterias têm a característica de atuarem ora como consumidores, ora como geradores. Conseguem deslocar a geração perdida das renováveis para outro momento de necessidade", complementa.
Adriana Oliveira, gerente de Novos negócios e Inovação da Thymos, acrescenta que BESS e térmicas não são diretamente comparáveis, por suas particularidades. Ela também acredita que ainda há espaço para contratação das baterias.
"É importante separar as tecnologias e os serviços que ela entregam: as térmicas são despacháveis a qualquer instante, enquanto a bateria demanda uma fonte primária de energia. Ela tem sua importância, porque estamos numa crescente de investimento em geração distribuída e temos um problema sério do curtailment e de modulação de carga. E para esse serviço a bateria é ótima"
Para Adriana, a bateria também tem um papel a cumprir na otimização do sistema.
"A bateria pode ser colocada onde realmente está o problema e, assim, tirar um suco a mais do sistema. Com a bateria no local certo, otimiza-se o sistema, que está sobrecarregado".
Disputa é pano de fundo em debate no Congresso
O pós-leilão das térmicas entrou numa fase decisiva este mês. A homologação dos resultados do leilão (a primeira leva, com as usinas contratadas para operar ainda este ano) está prevista para dia 21, mas ocorre em meio a questionamentos em diferentes frentes:- na Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), a Âmbar (grupo J&F) entrou com recursos para reverter parcialmente os resultados do leilão, mas sem sucesso;
- no Tribunal de Contas da União (TCU), a Corte sinalizou que pretende apertar o cerco aos "geradores de papel" e espera julgar o mérito dos questionamentos à formatação do leilão antes do dia 21;
- e, no Congresso, mais recentemente, parlamentares se mobilizaram para barrar o leilão.
O deputado federal, Danilo Forte (PP/CE), apresentou esta semana um requerimento de urgência para votação do PDL 264/2026 - de autoria da bancada do Novo e que suspende o LRCAP 2026.
A ofensiva joga luz sobre a disputa entre as térmicas e baterias, ao questionar a exclusão do BESS do desenho do leilão de potência.
"Ficou demonstrada a retirada proposital de tecnologias mais baratas e eficientes, notadamente os sistemas de armazenamento em baterias (BESS), em favor da contratação de usinas caras, poluentes, inflexíveis e obsoletas", cita o requerimento do deputado.
Antes disso, o LRCAP foi posto Durante audiência pública na Comissão de Minas e Energia da Câmara dos Deputados, na semana passada, Danilo Forte, parlamentar com histórico de atuação na defesa do setor de energias renováveis, em especial no Nordeste, chegou a classificar o LRCAP de março como um "descaso à economia popular".
A pressão política contra o LRCAP também tem contado com a voz de Jean Paul Prates, ex-presidente da Petrobras e ex-senador - e que também tem histórico de atuação em defesa das renováveis.
Atraso na regulamentação é o principal entrave
O diretor de Consultoria da Thymos, Fillipe Soares, acrescenta que o principal entrave para as baterias, hoje, não é a concorrência com o leilão das térmicas, em si, mas a pendência de regulamentação da BESS pela Aneel."São passos cruciais para reduzir as incertezas, dentro de um ambiente macroeconômico que hoje é desafiador, com juros altos", disse.
A crise das comercializadoras de energia e os problemas de curtailment, na avaliação da Thymos, tem despertado novamente a atenção do capital para atividades reguladas no setor elétrico.
"Por isso essa ansiedade em torno do leilão de baterias", afirma.
Em novembro de 2025, quando o MME abriu a consulta pública sobre o primeiro leilão de armazenamento do país, a previsão era de realização do certame em abril de 2026, com início do suprimento em agosto de 2028 - mas o cronograma não se confirmou.
A expectativa é que o leilão seja realizado no segundo semestre, mas o cronograma para isso é apertado e há o risco de que o certame escorregue para 2027.
No fim de abril, o diretor substituto do departamento de planejamento e outorga de geração do Ministério de Minas e Energia, André Perim, sinalizou que a portaria com as diretrizes do certame seria publicada "nas próximas semanas"
A portaria é o documento que falta para elaboração do edital do certame.
Eixos
https://eixos.com.br/politica/que-espaco-sobrou-para-as-baterias-apos-o-lrcap/


