Brasil começa a atrair investimento em fábricas de baterias com 1º leilão

Manfred Johann: "Armazenamento deve se tornar cada vez mais estratégico" - Foto: Rodrigo Arsego/Divulgação -
Expectativa é de desembolsos de R$ 8 bilhões e ganhos de escala em unidades a serem erguidas em Santa Catarina e Ceará a partir do certame de dezembro
Por Camilla Muniz - O Globo, do Rio
O mercado de sistemas de armazenamento de energia em baterias (BESS, na sigla em inglês) vive a expectativa de ganhar escala com a realização do primeiro leilão de baterias do país, previsto para dezembro.
O certame - cujas regras foram publicadas pelo Ministério de Minas e Energia na semana passada - já vem mobilizando empresas do setor e estimulando novos negócios, incluindo a construção de fábricas de baterias no Brasil. A estimativa da Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de Energia (ABSAE) é que o leilão movimente cerca de R$ 8 bilhões em investimentos.
As baterias são vistas como solução estratégica para mitigar o "curtailment", como é chamado o corte forçado de geração em usinas solares e eólicas em momentos em que há excesso de oferta. Elas podem guardar o volume excedente de eletricidade para injetá-lo na rede posteriormente, sobretudo nos horários de pico de consumo, contribuindo para ampliar a segurança energética do país e diminuir o risco de apagões.
"Além do impacto econômico, o leilão cria previsibilidade e acelera o desenvolvimento tecnológico. O setor trabalha com diferentes tecnologias de baterias e modelos de negócio, e a expectativa de contratação em escala naturalmente aumenta o interesse industrial no país", comenta o diretor-executivo da ABSAE, Fabio Lima. "O certame tende a posicionar o Brasil como um hub regional relevante para soluções de armazenamento na América Latina."
Uma das empresas que já anunciaram investimentos na indústria é a WEGCotação de WEG, especializada em soluções de engenharia elétrica. Em fevereiro, a companhia recebeu financiamento de R$ 280 milhões do BNDES para modernizar uma unidade dedicada à produção e integração de BESS e construir outra fábrica, que será a maior do tipo no país. Ambas as estruturas ficam em Itajaí, Santa Catarina. Com a execução das obras, a capacidade produtiva será de até 2 gigawatts-hora (GWh) por ano.
A nova unidade deve ficar pronta no fim de 2027 e terá como foco a fabricação de BESS para aplicações comerciais, industriais e "utility scale" (grande porte), atendendo a usinas renováveis e projetos de infraestrutura de rede, por exemplo.
Segundo o vice-presidente de Automação e Sistemas da WEGCotação de WEG, Manfred Peter Johann, investimentos futuros em expansão industrial, desenvolvimento tecnológico e nacionalização gradual da cadeia produtiva estão em avaliação. Hoje, a produção de BESS no Brasil depende de componentes importados da China, sobretudo células de bateria, que representam o "coração" do sistema.
"O armazenamento deve se tornar cada vez mais estratégico para o setor elétrico brasileiro ao longo dos próximos anos", afirma o executivo da WEGCotação de WEG.
À medida que o mercado se consolidar, temos a opção de avançar progressivamente na cadeia"
- Cristiano BragaPara o diretor de Desenvolvimento Produtivo, Inovação e Comércio Exterior do BNDES, José Luis Gordon, a nova unidade da WEGCotação de WEG inaugurará a fabricação de BESS em larga escala em território nacional. Há três programas distintos no banco com orçamentos somados de R$ 54 bilhões que podem ser acessados por empresas com projetos ligados a esse tipo de sistema de armazenamento. "As empresas também vão poder financiar os investimentos do leilão de baterias", afirma Gordon.
A Anodox, empresa sueca de BESS presente no Brasil desde o fim de 2024, foi contemplada com um financiamento do BNDES na mesma chamada pública que a WEGCotação de WEG, voltada para planos de negócios com o objetivo de investir na transformação de minerais estratégicos. A companhia, que hoje atua por meio de importação de sistemas de baterias produzidos pela cadeia industrial internacional do grupo, elegeu o Ceará para sediar sua primeira fábrica no Brasil. A unidade deve iniciar a operação em 2028 e criar 590 empregos, entre diretos e indiretos. A capacidade poderá alcançar 2 GWh por ano.
No primeiro momento, o foco da Anodox será a montagem modular e a integração de sistemas BESS, em parceria com um sócio chinês. A ideia, contudo, é fazer a transição gradual para a produção local.
"A fase inicial ancora o negócio, estabelece a marca no país e cria o fluxo de receita que sustenta os investimentos seguintes", detalha o CEO e sócio da Anodox no Brasil, Cristiano Braga. "À medida que o mercado se consolidar, temos a opção de avançar progressivamente na cadeia, incorporando etapas de maior valor agregado, como a montagem de células e, no médio e longo prazo, o processamento de minerais estratégicos em território nacional, com parceiros do setor."
Dois anos no mercado
Especializada em soluções de infraestrutura para a transição energética, a Brasol, controlada pelo fundo americano BlackRock e pela Siemens, estreou no mercado de armazenamento há dois anos. A empresa comercializa tanto sistemas que chegam totalmente prontos da China quanto equipamentos cuja montagem final é realizada por parceiros fabris locais.A companhia adotou o modelo BESS as a Service para indústrias e comércios. Ela arca com todo o investimento no projeto - incluindo desenvolvimento, estruturação, implementação, operação e manutenção - e faz um contrato de leasing com o cliente, que só paga as mensalidades pelo uso do ativo.
"O cliente não precisa investir e nós assumimos todos os riscos", destaca o diretor da unidade de BESS da Brasol, Diogo Zaverucha, acrescentando que a empresa quer participar da disputa em dezembro. "Com o leilão, toda a cadeia nacional se estrutura, o produto fica mais barato e o interesse pela solução aumenta."
Valor
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